sábado, 11 de abril de 2009

Esmiuçando o Acordo

A fixação visual da grafia das palavras é a maneira mais simples e eficaz de apreender e incorporar as mudanças definidas pelo Novo Acordo. No entanto, neste período de transição, nem tudo o que reluz é ouro...

No caso do verbo "esmiuçar", há quem escreva "esmiúça" com acento, e quem, acreditando seguir as novas regras, escreva "esmiuça" sem acento.

Exemplos não faltam para este segundo caso:

- "[...] entra no MySpace, esmiuça princípios econômicos [...]." (Zero Hora, 11/04/2009)

- "O Buchico+Guia esmiuça a programação e mostra [...]." (O Povo, 03/04/2009)

- "Amparado na história da educação e da cultura, o livro esmiuça as formas [...]." (Folha de S.Paulo, 05/04/2009)

- "Site esmiuça a construção de verbetes da Wikipédia." (Folha de S.Paulo, 25/02/2009)

Curiosamente, a Folha de S.Paulo se contradiz, e traz "esmiúça" com acento em outros momentos:

- "Mostra na Pinacoteca esmiúça relação do modernista [...]." (Folha de S.Paulo, 04/04/2009)

- "DVD esmiúça efeitos e bastidores de Hulk." (Folha de S.Paulo, 24/02/2009)

Conforme a Base X do Acordo, cai o acento agudo nas vogais tônicas grafadas "i" e "u" das palavras paroxítonas, quando precedidas de ditongo. Por exemplo, "feiura".

Não é o que ocorre com "esmiúça". Portanto, o certo é "eu esmiúço", "tu esmiúças", "ele esmiúça", "eles esmiúçam", "que eu esmiúce"... que todos esmiucemos o Acordo.

Ou então deveríamos escrever "viuva" sem acento também!

Corretíssmo este trecho da revista ComCiência (n. 107 - abril de 2009): "[...] incansável na explicação de suas ideias e que esmiúça os assuntos [...]".

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Nos bastidores do Acordo...

Com todo o respeito ao presidente Lula, que melhorou sua performance linguística ao longo dos últimos 10 anos, não resisti à tentação de trazer esta charge para o blog:

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A quem afeta o Acordo?

Os analfabetos desconhecem o Acordo.

Os recém-alfabetizados amanhecem para o Acordo.

Os semialfabetizados nem desconfiam que eram "semi-alfabetizados" antes do Acordo.

Os analfabetos funcionais não veem função alguma no Acordo.

Os alfabetizados vão, pouco a pouco, descobrindo o Acordo.

Os alfabetizados escolarizados estudam e divulgam o Acordo.

Os superalfabetizados já começam a sonhar com um novo Acordo...

terça-feira, 7 de abril de 2009

Notícias (desencontradas) de Portugal

Às vezes sinto receio de que o Brasil fique falando sozinho sobre o Novo Acordo Ortográfico. Terá sido acordo de um só signatário? Leio no jornal Mundo Português, cuja edição virtual foi atualizada hoje:

Acordo Ortográfico: Ministérios não se entendem sobre entrada em vigor

O ministério da Cultura fala em maio mas o da Educação diz que não entrará em vigor antes de ano e meio. O novo acordo ortográfico tem dado que falar em Portugal e ninguém parece entender-se.

Como anunciámos na edição passada a data de 5 de maio era apontada como uma possibilidade para a entrada em vigor do novo acordo ortográfico. Isto apesar do Ministério da Educação já ter deixado a garantia de que o Acordo Ortográfico, mesmo depois de estar inicialmente prevista para o ano letivo de 2009/2010, não entrará em vigor, em Portugal, antes de ano e meio.

No Parlamento, o secretário de Estado adjunto e da Educação já fez saber que não existe um calendário previsto para a introdução das novas regras. Jorge Pedreira frisou que vai existir um período de transição que as escolas vão usar. Entretanto, os professores estão apreensivos e expectantes quanto à inexistência de uma data concreta para a aplicação nas escolas do Acordo Ortográfico em vigor desde o início do ano. Refira-se que no Brasil, as escolas já estão a preparar a aplicação do novo Acordo Ortográfico, disponibilizando aos professores ações de formação sobre as novas regras.

O Novo Acordo implica a mudança em 1,6 por cento dos vocábulos portugueses mas a verdade é que as dúvidas têm surgido de dia para dia. No Brasil as novas regras já estão a ser adotadas de forma voluntária em alguns sítios, embora a obrigatoriedade só aconteça em 2012, sendo que até lá as duas ortografias serão aceites. Em Portugal 2014 é a meta para a uniformização gráfica da língua.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dona Jiboia

Saiu no



mas aqui não transcrevo, porque o texto da matéria está escrito de maneira muito sofrível... Vale, no entanto, indicar a reportagem, pela iniciativa de divulgar o livro em questão.


Refere-se ao livro Dona Jiboia e a alcateia. Na apresentação, a escritora Júlia Fernandes Heimann explica que uma palestra ministrada por um professor de língua portuguesa sobre o Novo Acordo estimulou-a a pesquisar o assunto.

Neste livro, as histórias e os personagens conduzem ao conhecimento das novas regras. O livro custa R$ 5,00 e em breve estará à venda nas livrarias.

domingo, 5 de abril de 2009

Fiéis ao Acordo

Vez ou outra a Folha de S.Paulo é infiel ao Acordo. E nesta fase de transição, pequenas infidelidades podem atrasar o processo de assimilação por parte dos leitores.

A palavra "fiéis" continua acentuada. Provavelmente quem escreveu o título desta matéria (publicada ontem, dia 4) confundiu-se, pensando que o ditongo aberto "ei" deveria perder o acento, como acontece em "ideia", "ureia", etc.

O curioso é que na legenda da foto lemos "fiéis", palavra oxítona, o que a exclui da regra que alterou as paroxítonas citadas acima. Em letras maiores, "fieis" sem acento rouba a cena...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

— Água!

Uma professora comentou neste blog que foi surpreendida outro dia por um aluno seu, da 7ª série. O garoto já sabia da polêmica do "acriano" x "acreano", e ela... nada!

Outro caso. Num curso que ministrei sobre o Acordo, para professores de uma cidade do interior de São Paulo, pedi à plateia que enumerasse em voz alta algumas palavras que perderam o trema. Um disse: "linguiça"! Alguém no fundão continuou: "sequestro"! E de repente uma voz mais à frente: "água"!

(Essa resposta lembrou-me o tempo em que eu jogava Batalha Naval...)


A realidade é que nem todos os professores estão preparados para ensinar as novas regras. E por isso é necessário parabenizar toda e qualquer iniciativa que contribua para melhorar essa situação.

Por exemplo, fiquei sabendo que no final de março, em Araçatuba (SP), os professores de toda a rede municipal assistiram a palestras sobre o tema. Os eventos ocorreram no auditório do Centro Universitário UniToledo, e o palestrante foi o escritor Hélio Consolaro, atual secretário municipal de Cultura, entusiasta da leitura e da literatura naquela região, que conheci pessoalmente em 2004, numa sessão da Academia Araçatubense de Letras.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Encontro ortográfico

Precisamos ler, mas também conversar sobre o Novo Acordo. Uma ótima oportunidade será o encontro ortográfico no dia 8 de abril, com os professores Luiz Costa e João Jonas Veiga Sobral, na Livraria Cultura (Shopping Villa-Lobos, em São Paulo).

Uma palestra-debate de duas horas sobre as novas regras e o modo como vêm sendo apreendidas. Começará às 19h30.

Luiz Costa é jornalista, editor da Revista Língua Portuguesa e doutorando em Educação pela USP. João Jonas é professor da Escola Móbile, do Colégio Rio Branco e das Oficinas Pedagógicas da Editora Segmento.

terça-feira, 31 de março de 2009

Reflexões sobre o Acordo

Não se trata de decorar regras, mas entender a fundo o espírito do Acordo... mesmo que haja tantos desacordos.

Um livro que pode ajudar, nesse sentido, foi escrito por Francisco Álvaro Gomes. O título não poderia ser mais simples e direto: O acordo ortográfico. Publicado pelas Edições Flumen e pela Porto Editora, em 2008.

Uma particularidade é que traz a visão de um gramático e escritor português, criticando vários aspectos do Novo Acordo, sem recair no catastrofismo de considerá-lo o fim do mundo, e o fim da língua portuguesa.

domingo, 29 de março de 2009

Jornal educador

Estive ontem, dia 28, em Carazinho (RS), ministrando curso sobre o Novo Acordo Ortográfico na Universidade Luterana do Brasil. E, como quem ensina sempre aprende, descobri que o jornal gaúcho Correio do Povo tomou uma decisão editorial muito interessante.

Em várias de suas páginas, quando surge alguma palavra com nova grafia em virtude do Acordo, ou mesmo quando não é o caso, mas se tem a chance de ensinar, a palavra é destacada e, num boxe, explica-se o porquê de tal grafia.

No exemplo abaixo, a palavra destacada foi "microempreendedores". A explicação no boxe é que o prefixo "micro" somente levará hífen diante de palavras iniciadas por "o" ou "h", como em "micro-ônibus", "micro-ondas" (antes do Acordo, o certo era "microônibus", "microondas", sem hífen), "micro-hidráulico", "micro-história".

sexta-feira, 27 de março de 2009

Espírito "revisador"

Amanhã comemora-se o Dia do Revisor. Em 2001, escrevi um texto a respeito.

O Novo Acordo Ortográfico trouxe trabalho para os revisores. Mas todos podemos e devemos cultivar um pouco desse espírito "revisador". Ler e reler nossos textos, em busca das falhas e deslizes. E, nesses tempos de transição ortográfica, ficar atentos ao que mudou... ou não mudou.

Meus parabéns aos revisores! E a todos os que revisam (e se revisam) todos os dias!

quinta-feira, 26 de março de 2009

(H)erva (h)úmida

No livro Em redor de Africa. Narrativa succinta de factos verdadeiros e de impressoes colhidas em flagrante, ornada com trinta e quatro reproduccoes photographicas (Porto: Typographia da Empreza Litteraria e Typographica, 1915), da autoria do escritor português Eduardo de Noronha (1859-1948), encontramos deliciosa passagem, em que se descrevem as dificuldades de deslocamento na floresta (troncos, ramos, cactos), dificuldades mil que barravam...

"a entrada dos agressores hábeis em se arrastar, silenciosos como reptis, pela herva húmida ou pelas estevas resequidas."

As palavras "herva" e "húmido(a)" tendem a perder o "h" segundo o Novo Acordo. No Brasil, já escrevíamos "erva úmida", mas esta mudança é agressiva aos olhos, mais do que aos ouvidos portugueses. O "h" não altera em nada a pronúncia dessas duas palavras.

A discussão entra no campo da etimologia. Deixemos "erva" de lado por enquanto e nos concentremos no problema da "humidade".

O étimo mais correto é "umidus" ou "humidus"? Há registros de "humido" e "humydo" (século XIV), e de "humedo" (século XV), mas já a partir do século XVI encontram-se também textos com a palavra sem "h".

Na tradição de línguas que adotaram a variante latina com "h", conhecemos humid (inglês), humide (francês) e húmedo (espanhol). Mas a outra variante, sem "h", gerou umido (italiano), umed (romeno) e o nosso "úmido", no Brasil.

Se o Acordo pretende unificar a ortografia da língua portuguesa, a divergência entre o "húmido" de Portugal e o "úmido" brasileiro pedia uma solução. Não há divergências na maioria das palavras iniciadas com "h": "hoje", "hora", "homem", "humor"... Mas era preciso propor algo com relação à "(h)umidade".

A palavra em questão não é mencionada explicitamente pelo Acordo ("erva" é, e lá se estabelece a eliminação do "h" de "herva"). A Base II, dedicada à letra "h" inicial ou final, diz que o "h" será suprimido no início de palavras quando, "apesar da etimologia", esta supressão estiver inteiramente consagrada pelo uso.

Ora, no caso de "úmido", esta grafia está consagrada pelo uso... no Brasil. Mas também está consagrada pelo uso em Portugal a grafia "húmido". O Volp registra apenas "úmido", "umidade" e "umedecer". Talvez, na prática, os portugueses continuem com "húmido", "humidade" e "humedecer", alegando a favor dessa dupla grafia (e outras duplas grafias há) o mesmíssimo argumento da tradição.

Uma polêmica que não ocorreu, e lembra um pouco esta, é o uso do verbo "registrar" no Brasil, ao passo que em Portugal usa-se "registar". O Volp mantém as duas possibilidades, sem traumas. Voltaremos a esse tema um dia. Por ora, fica apenas o registo, ou o registro...

E é nessas horas que percebemos com mais clareza a necessidade de cumprirmos nova etapa na implantação do Acordo. A criação do Vocabulário Comum da Língua Portuguesa, com a participação de todos os países da comunidade lusófona.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Acreano ou acriano?

Um acriano, queixando-se de que o Volp não mais autoriza a grafia "acreano", e registra apenas a forma com sufixo "-iano", desabafou num fórum virtual: "Estou me sentindo mutilado. Sou e serei sempre acreano com muito orgulho."

A 4ª edição do Vocabulário admitia as duas possibilidades: "acreano" e "acriano". A 5ª edição consagra "acriano" como única opção. A justificativa para descartar o "e" e entronizar o "i" é que o nome de origem, "Acre", termina em "e" átono. Por isso quem nasce em Açores é açoriano (o "e" é átono), mas quem nasce na Coréia do Sul (o "e" é tônico) é sul-coreano. Era uma tendência que veio se firmando ao longo do século XX e agora é consagrada pelo Novo Acordo.

Evanildo Bechara tem recebido do Acre dezenas de protestos. Os acrianos querem ser acreanos. Bechara responde: "Vejo no movimento pela manutenção do 'acreano' uma devoção ao nome. Os árabes dizem: dar nomes às coisas é sinal de possuí-las. Então eu vejo o movimento sentimental dos acrianos com alegria, porque vejo o respeito pela forma escrita. Como filólogo, repito, isso me causa muita alegria. Mas como técnico da língua, vejo em 'acreano' com 'e' um erro de história da língua. Quer dizer, nós estamos defendendo 'acreano' em nome da história do Estado, mas contrariando a história da língua. O que há é a história da língua, que é universal, contra a história dos acrianos, que é digna de respeito e admiração, mas é muito pontual."

O poeta Glauco Mattoso põe lenha na fogueira: "Si eu fosse acreano, jamais acceitaria graphar 'acriano', da mesma forma como um alagoano não ia gostar de escrever 'alaguano'."

terça-feira, 24 de março de 2009

Põe hífen... tira hífen...

"Vaga-lume", por exemplo, antes, era escrito assim e também sem hífen: "vagalume". As duas possibilidades estavam autorizadas pela 4ª edição do Vocabulário Ortográfico. Nesta atual 5ª edição, somente a forma hifenizada é permitida.

A 4ª edição nos ensinava que o certo era escrever o verbo "sotopor" sem hífen, e o adjetivo "sotoposto" (ô) também sem hífen. A 5ª edição agora registra a grafia "soto-pôr", sistematizando o hífen em todos os vocábulos iniciados pelo prefixo "soto-". Mas "sotoposto", o particípio passado do verbo, ficará sem o "tracinho trapalhão", bem como as formas conjugadas "sotopus", "sotopuseste", etc.

Por vezes, porém, nem o Volp nos ajudará. O Dicionário Houaiss traz a palavra "super-alma", conceito transcendentalista na filosofia de Ralph Waldo Emerson (1803-1882). Talvez o hífen tenha aparecido por influência do título em inglês, The Over-Soul, que com hífen o autor escreveu. Mas este uso contraria a regra segundo a qual só empregamos o hífen com o prefixo "super-" quando o segundo elemento começa por "h" ou "r".

Na 4ª e na 5ª edições do Volp não aparece este vocábulo. Continuará sendo uma exceção? Ou se tornará "superalma", sem hífen, ao lado de "superaltar", palavra que não consta do Houaiss?

segunda-feira, 23 de março de 2009

Eu zoo no zoo

Eu chamo de "lista da humildade" um recurso muito simples, que o Volp vai ajudar a concretizar. Trata-se de fazer uma lista de palavras alteradas pelas regras do Novo Acordo.

Por exemplo, fazer a lista de palavras em que o hiato "oo" não é mais acentuado: enjoo, voo, sobrevoo, coroo, apregoo, perdoo, coo, amontoo, algodoo, moo, abotoo, abençoo, amaldiçoo, povoo, soo, arpoo, revoo, magoo, aperfeiçoo, acolchoo, afeiçoo, atabalhoo, leiloo, entoo, enxampoo, escoo, heroo, eoo, atroo, ressoo...

Eu "zôo", do verbo "zoar", e o substantivo "zôo" (redução de "jardim zoológico") perdem o circunflexo. O livro de literatura infantil Zôo, de Fabrício Corsaletti e Mariana Zanetti (Editora Hebra, 2005), será Zoo.

domingo, 22 de março de 2009

Duas interrogações

No artigo que escreveu ontem para a Folha de S.Paulo, a professora Thaís Nicoleti de Camargo observa que no Volp a palavra "subumano" aparece seguida de "dois intrigantes pontos de interrogação".

Fui verificar. E, de fato, lá estão. Qual será a dúvida da equipe que preparou o Vocabulário? E por que não há pontos de interrogação depois de "subumanidade"? O Volp também registra "sub-humano" e "sub-humanidade". Estão permitidas, portanto, ambas as formas, com hífen e sem hífen.

A explicação que Evanildo Bechara já deu em algumas entrevistas é que os dicionários sempre tiveram posições diferentes diante das duas possibilidades. O Aurélio só acolhe "subumano", ao passo que o Houaiss registra "subumano" e "sub-humano". A 4ª edição do Volp traz as duas formas. A decisão foi aceitar o peso da tradição (talvez "subumano" tenha vingado por causa de "inumano" e "desumano", sem "h") e adotar a dupla grafia. Se Portugal fará o mesmo, continuamos sem saber, e talvez por isso as duas interrogações.

O Acordo recomenda que se use o hífen nas formações com o prefixo "sub" em que o segundo elemento comece por "h", e cita explicitamente o adjetivo "sub-hepático" (situado debaixo do fígado). No entanto, além desta grafia hifenizada, o Volp traz "subepático" (sem interrogações).

sábado, 21 de março de 2009

Enfim, o Volp

Enfim, chegou às livrarias o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa em sua 5ª edição. O Vocabulário do Novo Acordo.

Mas a polêmica não termina aqui. Esta empreitada foi brasileira, o que fortalece, na opinião pública portuguesa, a impressão de que estamos nós querendo capitanear tudo, "governar a implantação do Acordo", como disse em entrevista o professor José Luiz Fiorin (hoje, na Folha de S.Paulo).

São 878 páginas, 349.737 vocábulos, e cerca de 1.500 estrangeirismos. Um livro para ficar folheando, degustando, aprendendo, fazendo descobertas.

Como já se fez ver, a palavra "coerdeiro" aparece assim, sem hífen e sem "h", embora no texto oficial do Acordo seja citada a forma "co-herdeiro". O Vocabulário corrige o Acordo, baseando-se no consagrado "coabitar". Manter "co-herdeiro" obrigaria Bechara e sua equipe, em nome da coerência, a registrar, com hífen, "co-habitar".

Termo do jargão linguístico, "co-hipônimo" (por exemplo, cão e gato são co-hipônimos em relação ao hiperônimo mamífero) não é mencionado no Volp. Mas, seguindo o raciocínio anterior, perde o hífen. Será a partir de agora "coipônimo".

Já "coomologia", que na 4ª edição do Volp era "co-homologia" (termo da topologia algébrica... campo de estudo que não é para qualquer um), aparece também sem hífen.

Um caso estranho. Quem for acusado ou condenado pela participação com outra pessoa num mesmo delito será "corréu", e não mais "co-réu".

sexta-feira, 20 de março de 2009

Fato/facto consumado... ou não?

O jornal português Correio da Manhã anunciou que dará início à adaptação do jornal ao novo Acordo Ortográfico. Paulatinamente. Nem todos os textos serão escritos pelas novas regras: "A nova ortografia só se estenderá a todos os textos do jornal, respectivamente primeira página e manchete, quando já ninguém estranhar a palavra 'facto' escrita sem cê", declarou Octávio Ribeiro, diretor/director do jornal.

A resistência é grande em Portugal, como se o Acordo fosse imposição brasileira sobre aquele país. Num fórum em que se discute a Nova Ortografia, um internauta português fez a seguinte comparação: "É como se o inglês falado na Índia se sobrepusesse ao inglês falado na Grã-Bretanha, só porque os falantes são muito mais numerosos no país asiático do que no europeu."

O ouvido lusitano dói, se eu escrevo: "Cristo, de fato, morreu na cruz." Numa lógica linear, presa à letra, Cristo vestiu um terno e morreu crucificado. Perfeito. Mas também alguém poderia alegar que "terno", roupa, confunde-se com o adjetivo referente a sentimentos afetuosos. O contexto nos ajuda a descobrir em que sentido a palavra polissêmica está sendo empregada.

O fato é que o Acordo foi ratificado por Portugal. É fato consumado. Ou não?

quinta-feira, 19 de março de 2009

A história do hífen

O hífen é o pesadelo, o pomo da discórdia, a besta do apocalipse! É a pedra no caminho, a pedra de escândalo, o fim da picada.

Seria interessante alguém fazer a história do hífen, comparando-a com a história do apóstrofo, do til ou do ponto de interrogação. Certamente há coisas mais urgentes na vida, mas é como dizia Ortega y Gasset: o ser humano não quer apenas sobreviver, quer viver. E a nossa existência tem milhões de coisas assim, que parecem supérfluas, pura perda de tempo.

Vejam, por exemplo, as coleções. Há os que colecionam selos, moedas, cartões telefônicos, cartões postais, canetas, cardápios, conchas, gravuras, gibis, caixas de fósforos, camisetas, chaveiros, girafinhas e outros animais em miniatura — pinguins, corujinhas, burrinhos, rinocerontes, hipopótamos, elefantes, dinossauros... Para que, meu Deus, tantas coleções inúteis, enquanto morrem de fome milhares de crianças neste mundo?

E há quem colecione hifens, e até se preocupe em ter dúvidas sobre eles!

Ontem, uma pessoa me enviou a seguinte pergunta: "Trabalho em uma empresa de brinquedos educativos e gostaria de saber sobre o uso do hífen na palavra quebra-cabeça."

Aliás, quer melhor quebra-cabeça do que o próprio hífen? Sim, o tracinho trapalhão continuará na palavra "quebra-cabeça".

Uma curiosidade. O hífen também se chama traço-de-união, ou melhor, traço de união, sem hifens a partir de agora, segundo o Acordo.

Outra curiosidade. Poucos sabem que o hífen tem um irmão, o seu perfeito contrário, o antífen [#], sinal empregado pelos revisores para indicar a necessidade de separar palavras que se encontram justapostas.

terça-feira, 17 de março de 2009

Novo Guia

Precisamos de guias para os novos caminhos ortográficos. Não são tão complexos, mas exigem atenção. Tropeçar é fácil. O Museu da Língua Portuguesa começará a distribuir hoje, terça-feira, o Guia da Reforma Ortográfica.

O guia foi elaborado em parceria com a FMU, que o divulga em seu site.

Os responsáveis são os professores Adalto Moraes de Souza e Carlos Vismara, com a supervisão do professor Ataliba T. de Castilho, consultor do Museu da Língua Portuguesa.






domingo, 15 de março de 2009

O hífen da discórdia

O filólogo e gramático Evanildo Bechara, no Estado de S.Paulo de hoje, volta a falar a respeito do hífen, o tracinho trapalhão. Sobrou para ele, coitado. Para o hífen. Mas também para o gramático. Sobrou para nós também, lógico.

Bechara admite que o texto do Acordo vacila. Por isso, no Volp (prestes a ser publicado), tentou uma solução que preservasse a autoridade do texto oficial, sem multiplicar os problemas.

Concretamente, "para-quedas" passa a ser grafado sem hífen, "paraquedas", porque o Novo Acordo menciona expressamente esse exemplo, alegando que a noção de composição nessa palavra, "em certa medida", já se perdeu. Ninguém mais percebe que o paraquedas detém a queda do paraquedista...

O Acordo não cita a palavra "para-choque", uma vez que, provavelmente, ainda percebemos os choques a amortecer... O hífen aqui continuará firme e forte; o Volp assim o registrará. E "para-lama" também com hífen. Detalhe: os Paralamas do Sucesso nunca se preocuparam com isso.

sábado, 14 de março de 2009

Saberes ortográficos

Vou ministrar na Universidade Luterana do Brasil, em Carazinho (RS), o curso Reconstruindo Saberes Ortográficos, no dia 28 de março, sábado. Carga horária de 8h. As inscrições estão abertas na Central de Atendimento do campus e no site da Universidade.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Acordar melhor

O Acordo merece um acordar melhor — é essa a tese de um manifesto lançado no dia 11 de março.

É importante conhecê-los melhor (o Acordo e esse movimento que pretende fazer perguntas, colocar algumas decisões em xeque), é importante participarmos da discussão.

O movimento é polêmico. Como o Acordo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Notícias de Aracaju

Outra boa iniciativa. A Secretaria de Estado da Educação de Sergipe promoverá amanhã de manhã, sexta-feira, dia 13, o seminário Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, com a professora Helena Tiyoko Andrade Vieira. O público-alvo são coordenadores e supervisores do Programa Alfa e Beto.

Notícias de Salvador

Recebo e repasso.

Hoje, dia 12, nas Faculdades Integradas Olga Mettig, palestra sobre "O Acordo Ortográfico – Dúvidas e Definições". Entrada franca. O palestrante é o professor José Nilton Carvalho Pereira, membro do Conselho Estadual de Educação da Bahia. Horário: 18h30. Local: Rua da Mangueira, 33, Nazaré.

É bom conhecer, participar dessas iniciativas, divulgá-las. Porque existem resistências e incompreensões ainda. E o Acordo tem suas falhas, provavelmente precisará de algum aperfeiçoamento.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Notícias do Rio de Janeiro

Se eu, hoje um carioca apaulistado, ainda morasse no Rio de Janeiro, não perderia a oportunidade. Teve início ontem, dia 10, na Academia Brasileira de Letras, o 1º Ciclo de Conferências de 2009 (no Teatro Raimundo Magalhães Jr., na Av. Presidente Wilson, 203 - 1º andar), com o tema "O Acordo Ortográfico".

A palestra inaugural coube ao acadêmico Domício Proença Filho (foto acima) sobre "A história da ortografia e a ABL". Daqui a uma semana, no dia 17 de março, outra palestra, ministrada por um dos "pais" da criança, Evanildo Bechara, que falará sobre "O novo Acordo Ortográfico e a elaboração do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa".

A entrada é franca. E, francamente, acontecimento imperdível.

terça-feira, 10 de março de 2009

O inimigo número 1 do Acordo

O poeta, ensaísta e tradutor português Vasco Graça Moura é o inimigo número 1 do Acordo.

Um dos principais signatários do Manisfesto em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico, considera que Portugal não deve implementar as novas regras, e cita com frequência uma declaração de Pasquale Cipro Neto: "Não ficarei surpreso de Portugal não o colocar em prática. Aliás, sonho com isso. Seria maravilhoso se isso ocorresse".

Seria o fim do Acordo. No Brasil, ficariam incorporadas algumas mudanças que nos aproximam dos portugueses (a supressão do trema, particularmente), mas persistiriam diferenças que, na visão do ilustre escritor, são intocáveis.

domingo, 8 de março de 2009

Colisão ortográfica

O asteroide passou raspando, mas a colisão ortográfica aconteceu na última edição da revista IstoÉ.

Por mais que todos estejam sabendo... o perigoso objeto com acento não foi detectado por três vezes no espaço da revista.

O pessoal da Veja (07 de março) também dormiu no ponto: "Asteróide gigante perto da Terra". O jornal Zero Hora (03 de março) acertou: "Asteroide passou de raspão pela Terra".

sábado, 7 de março de 2009

Dúvidas pequenas e grandes

Uma pessoa me pergunta: "O certo é auto controle ou auto-controle??"

O certo é "autocontrole", antes e depois do Acordo. Mas a pergunta mostra que às vezes perdemos o controle e já não sabemos o que mudou ou deixou de mudar.

São dúvidas grandes ou pequenas, não importa. Outra pessoa me perguntou como classificar as letras que foram agora incorporadas ao alfabeto português: K, W e Y.

Essas novas (mas antigas!) letras deverão ser classificadas em vogais ou consoantes conforme a pronúncia. O K será sempre consoante, pois sempre é pronunciado como o C antes de A, O, U, e como o dígrafo QU antes de E e I. Já o Y será vogal (ou semivogal), porque normalmente é pronunciado como I.

A letra W é mais versátil. Pode ser vogal ou consoante. Será vogal ou semivogal em "show", "Windows", "whisky", "Wikipédia"... Ou consoante, em "wittgensteiniano", "Volkswagen"...

Há quem afirme que devemos chamá-los ainda de empréstimos linguísticos, mas acredito que o Acordo lhes deu plena cidadania.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Presente de aniversário

Acabo de saber que o lançamento do tão esperado Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras foi adiado mais uma vez! E para o dia 25 de março.



Vai ver escolheram essa data porque é o meu aniversário. Já sei que presente eu vou ganhar!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Resumão

O Novo Acordo ganhou no mês passado a primeira edição de um resumão, a cargo do Prof. Odilon Soares Leme, autor de vários livros, entre os quais um especialmente importante — Colocação Pronominal, publicado pela Editora Manole.
O resumão não é puro resumo, não! Há comentários interessantes e pertinentes, alguns deles alertando para a necessidade de esperarmos o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a sair nesta semana!

terça-feira, 3 de março de 2009

Brasil e(m) Portugal

O Acordo tem múltiplas consequências. Uma delas é que, apesar dos pesares, das incompreensões, dos preconceitos ainda existentes (alguns portugueses, mais radicais, dizem que no Brasil nós falamos o "pretuguês"...), apesar de tudo, essas discussões trouxeram à tona o fato/facto incontestável: assim como Portugal sobrevive no brasileiro, o brasileiro também se encontra em Portugal...

Esta reportagem é bem ilustrativa.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Hífen não!

Ontem, em seu artigo no Estado de S.Paulo, Evanildo Bechara afirma (e o que ele afirma, no âmbito da ortografia, hoje, no Brasil, é lei) que não se emprega mais o hífen com o advérbio "não" com função prefixal: não agressão, não alinhado, não combatente, não violência, não ficção, não participação, não fumante, não beligerante...

Todos estão cientes desta novidade? No jornal O Globo já li algumas vezes "não-ficção", e é assim também, com hífen, na lista dos mais vendidos da Revista Veja. No próprio Estadão, em 30 de janeiro deste ano, um dos títulos do caderno de notícias internacionais era: "Coreia do Norte anula acordo de não-agressão com Seul", acertando o "Coreia", mas errando no hífen de "não-agressão".

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Notícias de Fortaleza

A mídia contribui para a assimilação do Acordo Ortográfico adotando as novas regras com a máxima rapidez e, sobretudo, com a máxima coerência.

A partir de amanhã, 1º de março, as empresas do Grupo de Comunicação O POVO, de Fortaleza (CE), passarão a implantar as mudanças ortográficas previstas. Trecho do texto oficial:

"Todos os profissionais das Redações do O POVO, da rádio O POVO/CBN, da TV O POVO, do O POVO Online e da Fundação Demócrito Rocha passaram por um curso sobre as mudanças implantadas com a reforma ortográfica.

"O treinamento foi ministrado pelo professor de português Myrson Lima, autor do material didático entregue a todos os participantes. O editor-chefe-executivo da Redação do O POVO, Erick Guimarães, diz que a iniciativa do Grupo merece destaque, já que o Brasil tem até o ano de 2013 para se adaptar às mudanças. Mas dois meses depois de o acordo começar a valer, o Grupo de Comunicação O POVO já o toma como referência.

"'É importante o jornal se antecipar. É um processo de mudança cultural, mas o jornal cumpre sua função educativa quando implanta logo as mudanças', afirma Erick. Para o reitor da UniOPOVO, Sérgio Falcão, instituição que promoveu e organizou o curso, a escolha do professor foi fundamental neste processo. 'O professor Myrson Lima é uma referência nacional no ensino de português e a adoção da nova ortografia pelo Grupo é o grande diferencial das empresas que se preocupam com o aprofundamento dessas mudanças', ressaltou Sérgio Falcão. Para ele, o treinamento não foi uma mera aula, mas evoluiu pelo nível de discussão proporcionado a partir do debate entre jornalistas e professor.

"De acordo com o professor Myrson Lima, a adoção da nova ortografia pelo Grupo de Comunicação O POVO reforça o trabalho social do jornalismo com a educação. 'O jornal tem um papel educativo muito forte. Quando ele adota o acordo ortográfico, o leitor passa a se familiarizar. É uma forma de educar', afirma o professor. Ele acrescenta que, a partir disso, os meios se tornam mais globalizados, já que um leitor de outro país que fale português passa a entender melhor o conteúdo. Myrson Lima destaca as vantagens de O POVO Online também passar a adotar a nova ortografia, já que a linguagem do portal é mais dinâmica. 'Para o desempenho do jornalismo, o acordo é um instrumento de simplificação. Facilita um pouco a grafia de algumas palavras, como, por exemplo, a diminuição de tanto hífen', cita. Para ele, ainda há muita desinformação quanto ao acordo e bastante resistência também."

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Oficinas sobre o Acordo Ortográfico: avanços e ranços

Hoje, dia 26 de fevereiro e amanhã, dia 27, em duas cidades no interior de São Paulo: Américo Brasiliense e Palmital, respectivamente. Vou ministrar oficinas sobre o Acordo Ortográfico para professores desses municípios.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Notícias de Portugal

O Acordo foi aprovado pelo governo de Portugal, mas ainda falta implementá-lo. As definições são pouco definitivas... Há resistências, hesitações. Esta reportagem foi publicada no dia 22 de fevereiro, no Correio da Manhã:

Educação: Acordo ortográfico nas escolas no próximo ano

Os professores estão apreensivos e expectantes quanto à inexistência de uma data concreta para a aplicação nas escolas do Acordo Ortográfico em vigor desde o início do ano. Segundo Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, as intenções dos ministérios da Cultura e da Educação, em aplicar o novo acordo dentro de alguns meses, são precipitadas se não existir primeiro uma formação específica para os professores.

"Parece-me que se está a começar, mais uma vez, pelo fim. Dizem que se quer experimentar o novo Acordo Ortográfico já no próximo ano lectivo, mas não basta dizer que vai haver umas escolas-piloto. Tem de haver uma formação para que o processo decorra dentro da normalidade", afirmou Mário Nogueira ao CM, sublinhando que até agora os professores não foram ouvidos: "O que sabemos é pelos jornais. Quando se introduz alguma coisa nova numa escola, a primeira coisa que se deve fazer é consultar os professores. Pois são eles que preparam os programas."

Estando tudo por definir, o secretário-geral da Fenprof apela ao Governo para que trate do assunto com ponderação, de forma a existir um período de adaptação: "Não pode ser tudo feito à última da hora, como é costume fazer-se em Portugal, especialmente na Educação, onde são as escolas que tentam descobrir uma forma de responder ao problema."

António Pinto Ribeiro, ministro da Cultura, estabeleceu recentemente um prazo de quatro meses para a entrada em vigor do Acordo Ortográfico. Além disso, sugeriu que os professores devem introduzir as novas regras de uma forma progressiva.

"Os professores vão precisar de formação específica, pois sempre foram preparados para uma determinada forma de escrever e agora deparam-se para um novo Acordo", ressalvou o secretário-geral da Fenprof, acrescentando que as ferramentas informáticas, por si só, não são suficientes para o processo de aprendizagem.

No Brasil, as escolas já estão a preparar a aplicação do novo Acordo Ortográfico, disponibilizando aos professores acções de formação sobre as novas regras.

(André Pereira)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sai um café com leite!

Ontem, no Estado de S.Paulo, novo artigo de Evanildo Bechara sobre questões ligadas ao Novo Acordo.

Dessa vez, o problema das palavras compostas. O caso de "café com leite", por exemplo.

Era certo, até 2008, escrever "café-com-leite" para designar (1) a cor semelhante ao bege da mistura de café com leite, e (2) a política entre São Paulo (produtor de café) e Minas Gerais (produtor de laticínios) no início do século XX, pela qual paulistas e mineiros se alternavam na presidência do país.

Uma coisa era escrever "gosto de café com leite", e outra, "café-com-leite é cor neutra" ou "fale-me sobre a política café-com-leite". Agora não há mais hifens.

A propósito dessa questão de hifens, uma revisora escreveu-me:

"Estou revisando um pequeno manual e apareceu 'café da manhã', assim, sem hifens. O correto, anteriormente, era com hifens, não é mesmo? Segundo o Novo Acordo, na Base XV, item 6º, nas locuções de qualquer tipo não será empregado o hífen, salvo em alguns casos consagrados pelo uso. E aí? Eu não usaria em 'café da manhã', e você?"

Alguns dicionários, antes do Acordo, registravam "café-da-manhã", mas a maioria das referências trazia a forma sem hifens. As duas possibilidades eram defensáveis. A partir de agora, sempre sem hifens.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Furo!

"Perfeição... só no céu!", diz a minha mãe. A Folha de S.Paulo de hoje demonstrou que o Acordo, embora altere a grafia de apenas cinco palavras entre mil, é mais traiçoeiro do que parece.

No título do texto assinado por Eliane Cantanhêde (na prestigiosa página 2!), "constroi" em lugar de "constrói", e "destroi" em lugar de "destrói". Quem disse que este acento caiu nas palavras oxítonas? No último parágrafo, outro "destroi".
Claro, não é o fim do mundo. Apenas um furo!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A nova oltoglafia em quadlinhos

O Cebolinha, com a ajuda de uma fonoaudióloga, corrigiu seus problemas de dicção. Hoje, o Cebola, a Mônica e seus amigos trabalham em estilo mangá numa série para adolescentes.
A turma do Mauricio de Sousa levou a sério as regras do Novo Acordo e está se esforçando para acertar. Desde o primeiro número de 2009 (janeiro): "voo", "asteroides", "ideia"... contribuindo para a fixação visual da nova ortografia.

Mas escorregou em "dia-a-dia" (agora sempre sem hifens), na carta de despedida do cartunista, ao mesmo tempo em que faz corretamente o "para" e o "minirrobôs".

E uma curiosidade: a palavra "véio" (amigo), gíria entre os adolescentes, também deve perder o acento, confundindo-se com "veio" (filão).

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Acordo decola ou não?

A TAM distribui gratuitamente entre seus passageiros o primeira chamada, em princípio sintonizado com o Novo Acordo.

Na primeira página desse informativo, ontem, lemos a palavra "estreia" sem acento. Positivo! Mas também o substantivo "dia-a-dia" hifenizado. O certo agora é "dia a dia" sem hifens, seja substantivo, seja locução adverbial (cf. Dicionário escolar da língua portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, 2ª ed., São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008).

A publicação acerta em "frequência", "infraestrutura" e outras palavras, muito bem! Mas na página 15, por exemplo, deixa escapar "platéia" com acento.

É o caso de alguém perguntar: o Acordo decola ou não?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A cartilha que Marabraz fez

Sinal dos tempos. Uma cadeia de lojas populares, a Marabraz, lançou e tem distribuído gratuitamente uma Cartilha de Mudanças na Língua Portuguesa. É bastante simples, e por isso mesmo tem sua utilidade, pensando-se no vasto público que atinge.

Dedica as sete páginas iniciais ao trema, aos acentos, ao hífen... e nas outras sete faz sua propaganda: mesas, cadeiras, estação de trabalho, estantes. Afinal, não é por amor a Alá que o gato caça ratos, como diz um provérbio árabe.

Não sei se a Marabraz realmente faz o menor preço, mas devemos aplaudir a iniciativa de divulgar o Novo Acordo.



terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Acordo nos pés

Atenta ao Acordo (e associando sua imagem à modernidade), a Azaleia retirou o acento agudo de sua marca de calçados femininos.

As novas regras permitem que as empresas mantenham a grafia original de suas marcas (cf. Base XXI), mas é sinal de sintonia (até mesmo um gesto pedagógico) adaptar-se.

Antes: Azaléia.

Agora: Azaleia.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A ateia caiu na teia

Conversando como quem não quer nada, sobre temas variados, de repente ouço a palavra "ateia", sem acento, como mandam as novas regras. Assim é. Já estou na teia do Acordo.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Notícias do Acre

Para os acrianos, o Novo Acordo traz uma dificuldade adicional. Antes, era permitido escrever "acriano" ou "acreano". Os dicionários registravam as duas possibilidades, com o abono do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

Agora, ficou acertado que se escrevem com i, e não com e, antes da sílaba tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos -iano e -iense (cf. Base V).

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Mais uma indicação bibliográfica

Cresce o número de pessoas cientes de que o Novo Acordo Ortográfico existe. Existe e exige mais atenção, estudo, prática. Nas livrarias, vários títulos que podem nos ajudar.

Um deles, recente, é este, pela Editora Ibpex, do Paraná.

De acordo com o Acordo — um título bem escolhido.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Reforma ortográfica pessoal

É preciso que cada um passe por uma pequena reforma ortográfica pessoal. Ontem, revisei um texto meu e percebi que não é tão fácil assim detectar as necessárias mudanças. E lendo um livro (por sinal muito bom) do Prof. Yves de La Taille, Formação ética: do tédio ao respeito de si, pela Artmed (2009), notei que a editora esforçou-se por adotar as novas regras.

Nem sempre conseguiu.

Lá estão "frequente", "veem-se", "europeia", perfeito... Mas, em alguns momentos, deslizes inexplicáveis, causados, talvez, por um espírito de hipercorreção. Querendo tanto acertar, autor e/ou revisores inventaram um "belprazer" (pág. 58) sem hífen, escreveram "bençãos" (pág. 65) sem circunflexo... Há outros exemplos.

E de repente deixaram a peteca cair, com um "idéias" (pág. 55) acentuado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Ops!

A Folha de S.Paulo tem se esmerado para seguir as regras do Novo Acordo. Mas, como sempre diz minha mãe, a perfeição só no Céu. Hoje, na primeira página do suplemento Equilíbrio, lemos "bóia" com acento.

Comentário avulso

Ontem, conversando com uma pessoa sobre o Acordo Ortográfico. E então descobrimos que o mais difícil, para não poucos, será perceber o que NÃO mudou? "Também" continua acentuada? "Você" virou "voce"?

Levemos em conta as lacunas em nosso conhecimento ortográfico. Para entender o novo é preciso ter intimidade com o antigo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Recordar é aprender

Quem se lembra com detalhes da reforma ortográfica de 1971, que entrou em vigor em 18 de dezembro daquele ano? Foi instituída pela Lei nº 5.765. Abolia o trema nos hiatos átonos (como em "saüdade", que na prática já estava esquecido), os acentos diferenciais (com poucas exceções) e o acento grave em palavras como "cafèzinho" e "sòmente".

Causou algumas dificuldades de adaptação para pessoas habituadas ao sistema anterior. Eu tinha 9 anos de idade. Assimilei as mudanças rapidamente... pelo menos imagino que sim.

Na época, a revista Veja aderiu às novas regras com diligência. Na sua edição nº 175, de 12 de janeiro de 1972, a palavra "cor", antes acentuada com circunflexo, aparece na capa.


Notícias de Cabo Verde

Uma bela entrevista do ministro da Cultura de Cabo Verde, Manuel Veiga, ao Diário de Notícias, de Lisboa.

Especificamente sobre o Acordo Ortográfico nesse país, anuncia que será implementado até fins de junho, trabalhando com um período de transição de seis anos. O ministro Manuel Veiga é linguista.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Notícias de Minas

Início do ano letivo, podemos medir a preocupação pedagógica das escolas e professores pela atenção ao Novo Acordo. A notícia que vem de Minas é esta:


Uberaba, 07/02/2009.

Iniciar o ano escolar sempre assusta os pequenos. Geralmente a volta às aulas é sempre cheia de novidades. Nas escolas particulares, as mudanças já começaram a mexer na rotina não só dos professores, mas também dos alunos.

Entre tantas mudanças corriqueiras no início do ano letivo, a maior novidade para este ano está no novo acordo ortográfico. Para os professores de português, a preocupação com as novas regras é grande, mas eles acreditam que não será difícil para os estudantes se adaptarem a elas.

De acordo com a diretora do Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, Nilza Pinheiro, o ano letivo nas escolas públicas de Uberaba começou em torno do novo acordo ortográfico. Ela disse que apesar do acordo já estar em vigor, as antigas regras ainda estarão valendo, principalmente para os alunos já alfabetizados. "Estas mudanças ocorrerão gradativamente, mas os alunos que estão iniciando a alfabetização agora já conhecerão o novo acordo", disse ela.

Nas livrarias, ainda há livros nas regras antigas, já que as editoras têm até o ano de 2012 para atualização dos mesmos, mas dicionários e livros de regras já chegaram atualizados para facilitar a vida de pais, professores e alunos.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Polêmicas hifenísticas e o Dr. Benvindo

O ponto mais polêmico do Acordo é o hífen. Hoje, no Estado de S. Paulo, o gramático Evanildo Bechara faz algumas considerações sobre o comportamento de "bem" prefixado.

No final das contas, "bem-vindo" ou "benvindo"? "Bem-feito" ou "benfeito"?

Segundo o texto do Acordo (cf. Base XV, 4º), o certo seria "benfeito": o advérbio "bem" aglutina-se com um segundo elemento que não começa por vogal ou h. Também "benvindo".

Evanildo Bechara conclui — "benfeito" é homófono de "bem-feito", mas são palavras com significados distintos "que o bom-senso e a fidelidade à intenção comunicativa mandam distinguir graficamente". "Bem-feito", adjetivo, teria a ver com o que é elegante, feito com esmero. Ao passo que o substantivo "benfeito" estaria ligado à ação de fazer o bem.

No caso de "bem-vindo" e "benvindo", o primeiro é adjetivo, aquele que é
bem-aceito num grupo, numa comunidade.
O segundo é nome próprio, "Benvindo", como no caso de Dr. Benvindo de Salles, uma das maiores autoridades no Brasil em orquídeas!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Matão (SP) em Acordo

Hoje, oficinas com os professores da cidade de Matão (SP). Uma primeira parte, teórica, e uma segunda mais lúdica, jogos rápidos para fixar as principais regras. No caso dos professores, a preocupação adicional de aprenderem para ensinar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Editoras se adaptam ao novo Acordo Ortográfico

Reproduzo matéria do DCI, do dia 3 de fevereiro:

BRASÍLIA - Com a entrada em vigor do Novo Acordo Ortográfico entre os oito países de língua portuguesa no início deste mês, as pequenas editoras brasileiras passam por um processo de adaptação às atuais regras. O processo inclui a reedição de livros dos antigos catálogos com as modificações. O prazo para implementação do Acordo vai até dezembro de 2012.

A LGE Editora, do Distrito Federal, começou a adotar as transformações ortográficas em seus títulos. Antônio Carlos Navarro, diretor executivo da LGE, adianta que os dois próximos livros da empresa brasiliense, com lançamento em fevereiro, sairão seguindo o Acordo.

Para Navarro, o principal problema para a LGE será reeditar os livros antigos com as atuais regras. “Isso significará um trabalho enorme e custos, mas o prazo, até 2012, é razoável”, comenta. Segundo Antônio a adaptação deve ser imediata para quem produz livros didáticos e de referências, como dicionários, para atender a demandas como as das escolas.

Antônio Carlos acredita que a adaptação ao Novo Acordo Ortográfico não deve ser muito rápida e que haverá dificuldades tanto para quem atua no setor, como escritores e editores, como para os próprios leitores. “Agora é que começaram a surgir novos dicionários seguindo o Acordo. Nossos revisores estão preparados para trabalhar com as mudanças, porém é necessária uma consonância com os autores”, afirma.

Araíde Sanches, gerente de produção da Editora Escuta, em São Paulo, diz que os três primeiros lançamentos da empresa, dois livros e uma revista, em março, sairão já com as novas regras ortográficas. A Escuta publica edições principalmente nas áreas de Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria.

A gerente diz que a adaptação dos lançamentos acontecerá sem grandes problemas, embora os revisores ainda tenham algumas dúvidas. “Eles esbarram principalmente na acentuação, como na queda dos acentos diferenciais”, revela.

Para Araíde a Editora Escuta terá mais problema com as reedições. “Neste caso, a transformação dos livros antigos para as novas regras vai exigir uma grande despesa e gasto de tempo. Teremos que reformatar os textos ou submetê-los novamente a revisão”, explica.

Daniel Zanette, supervisor da Maneco Editora, de Caxias do Sul (RS), se diz otimista com as mudanças na ortografia. A Maneco, especializada em literatura brasileira, infantil, infanto-juvenil e em administração, tem cinco livros no prelo, com lançamento agendado para a primeira quinzena de fevereiro. Todos sairão atendendo às normas do Acordo.

O supervisor conta que a editora de Caxias do Sul contrata revisores terceirizados e que estabeleceu até o fim de 2008 para que esses profissionais se adequassem às novas regras. Zanette diz que como a Maneco fornece material para escolas, havia urgência na adaptação ao Novo Acordo Ortográfico. “Somos muito cobrados em relação a isso”, revela.

Na visão de Daniel, as mudanças não trarão problemas, nem mesmo para a reedição de livros antigos. A empresa possui um catálogo de 180 títulos. “O brasileiro tem a cultura de reaproveitar livros. Acho que as mudanças vão permitir um aumento no consumo”, acredita.

Embora diga que o Novo Acordo foi importante, Zanette pensa que ele poderia ter sido mais ousado. “Ficaram muitas diferenças entre os países em normas como as de acentuação. Se era para mudar, acho que tinham que ter ido além”, afirma.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Londrina está de Acordo

A Folha de Londrina preparou-se bem para o Novo Acordo. Na sua primeira página de hoje, teve o cuidado de escrever "autoatendimentos", sem hífen.

Contudo, na mesma primeira página, na última linha, lemos "Século IX", em que a letra maiúscula "S" não faz sentido, a menos que se trate de uma norma interna do jornal.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Entender o Acordo é direito e dever

Do portal http://www.direitoce.com.br/ — destinado a coletar e divulgar informações sobre o Direito no Estado do Ceará:

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi tema de palestra, na manhã de hoje, 5ª.feira (29/01) na sala de treinamento do edifício sede da Justiça Federal no Ceará.

Magistrados e servidores discutiram as novas regras de ortografia sob a orientação do professor Myrson Lima (foto), que realizou com os alunos exercícios para fixação das mudanças empreendidas.

Em sua exposição, o professor Myrson Lima disse que o que se deseja fazer é uma unificação da ortografia, ou seja, “estabelecer uma convenção por meio da qual se representam graficamente as formas faladas da língua e como se escrevem essas formas”. O que se pretende é unificar a escrita e não a língua, que varia de país para país, de região para outra, de um grupo social para outro, de uma faixa etária para outra, de uma situação de comunicação para outra, acrescentou Myrson Lima. (http://direitoce.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=4470)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Banco do Brasil compra a ideia

Este informativo publicitário do Banco do Brasil traz um bom argumento para que todos adotemos o Novo Acordo o mais rápido possível.

À medida que mais instituições e pessoas escrevam segundo as novas regras ortográficas, com maior facilidade assimilaremos a ideia.

O Novo Acordo está em vigor no Brasil faz um mês. E ainda há gente esperando o carnaval chegar...